- Autor
- Marcos Machado
- Revista
- Kalagatos
- Edição
- 23 / 2
- Ano
- 2026
- DOI
- 10.52521/en0ct602
- Páginas
- ek26022-ek26022
- Idioma
- pt
Os movimentos de descida (ϗαταβαίνέν – catábase) e subida (Ἀνάβασις – anábase) dos personagens Sócrates e Zaratustra, respectivamente no Livro I e VII de A República de Platão, bem como no Prólogo e Quarta parte (“A festa do asno”) de Assim falou Zaratustra de Nietzsche, apesar de revelarem estratégias aparentemente semelhantes, têm finalidades filosóficas radicalmente divergentes. A descida de Sócrates ao Pireu é um recuo astucioso em sua jornada pelo conhecimento; longe de abandoná-lo, essa descida representa a preparação gradual para sua ascensão a uma realidade suprassensível. Sócrates desce para poder guiar outros a subirem. Em nítido contraste, a subida de Zaratustra à montanha ilustra momentos de introspecção e de “autoconhecimento”. Seu subsequente declínio só acontece após ele estar “transbordando de sabedoria”, um conhecimento que simboliza a valorização do mundo sensível, palco fundamental para o surgimento do novo tipo humano (Übermensch). Argumentaremos, neste artigo, que a representação estratégica de entrada e de saída da caverna, observável em passagens-chave de ambas as obras, constitui um indício fundamental da tentativa de Nietzsche de inverter o platonismo.
