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A visão da liberdade e o olhar relacional em Mestre Eckhart. Uma fenomenologia da criação segundo o pensar em Mestre Eckhart

GILBERTO GONCALVES GARCIA

Tese
Autor
GILBERTO GONCALVES GARCIA
Orientador(a)
GILVAN LUIZ FOGEL
Universidade
UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO DE JANEIRO — UFRJ
Programa
FILOSOFIA
Grau
DOUTORADO
Ano
2007
2007GILBERTO GONCALVES GARCIA. A visão da liberdade e o olhar relacional em Mestre Eckhart. Uma fenomenologia da criação segundo o pensar em Mestre Eckhart. 2007. Tese (DOUTORADO em FILOSOFIA) — UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO DE JANEIRO, RJ. Orientador(a): GILVAN LUIZ FOGEL.2

O tema central deste trabalho parte de uma desconfiança preliminar de que na base do pensamento místico especulativo amadurece um modo de articulação da tese do ser, estranha ao modo de articulação da tese do ser da ontologia medieval, na qual ela se fundamenta. Eckhart interpreta o ser a partir de um movimento. Sua doutrina resume uma teologia que busca descobrir a possibilidade ontológica que preserve, ao mesmo tempo, a identidade e a diferença absoluta, na relação entre Deus e criatura. Para descrevê-la, Mestre Eckhart desenvolve uma compreensão relacional de mundo, na qual as criaturas são concebidas em permanente auto-realização e esta auto-realização é um processo constante de transformação interna nas coisas. Em sua """"ontologia da relacionalidade"""", o todo só pode existir na articulação do particular e o particular possui sua realidade na articulação do todo. Não há como concebê-los como realidades separadas. A relacionalidade se dá desde o outro e desde o todo do outro, que, por sua vez, também não está """"acabado"""". Para o pensamento de Eckhart, no entanto, a relação a priori do todo com a parte se constitui num princípio. O primeiro esboço de um pensar relacional aparece em sua doutrina da criação, junto com o conceito de """"Abgeschiedenheit"""" (abnegação), cem anos antes da doutrina dos relata de Nicolau de Cusa, quem sistematiza o pensar das relações. Mestre Eckhart desenvolve, assim, uma """"ontologia das relações"""" aos moldes de uma ontologia da finitude. Nela surge o paradoxo de que o finito, justamente por ter de ser, cada vez (sua estrita finitude), se converte na expressão e no conteúdo do todo. Mesmo a menor das finitudes, se permanecer relacionalmente referida ao todo, ela é o mesmo com o todo. Não havendo diferença real entre o absoluto e o relacionado, o problema da distinção entre Criador e criatura pode ser também interpretado moduladamente. A partir desta compreensão fundamental, Mestre Eckhart cunha outros termos em sua homilética nos quais se articula o pensamento dialético da relacionalidade. Estes termos se convertem nas categorias fundamentais de sua mística especulativa. Sobre alguns destes conceitos é que irá se debruçar este estudo, com vistas a saltar de uma ontologia das relações para uma possível """"ontologia da liberdade"""" em Eckhart. O que interessa a esta pesquisa é, de certo modo, demonstrar de que maneira Mestre Eckhart """"se livra"""" do problema teológico central da escolástica e, ao fazê-lo, abre o caminho para uma modificação aguda na ontologia do ser medieval em direção a uma ontologia da liberdade. Talvez a mística, em seu sentido eminente, tenha sido a aurora de um pensar relacional; um primeiro esboço formal da compreensão do ser como liberdade.