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'CONSIDERAÇÃO DAS COISAS COMPOSTAS’ E DEUS ENGANADOR NA PRIMEIRA MEDITAÇÃO

Ethel Menezes Rocha

Autor
Ethel Menezes Rocha
Revista
Revista Kriterion
Edição
66 / 160
Ano
2025
Idioma
pt
2025Ethel Menezes Rocha. 'CONSIDERAÇÃO DAS COISAS COMPOSTAS’ E DEUS ENGANADOR NA PRIMEIRA MEDITAÇÃO. Revista Kriterion, v. 66, n. 160, 2025.4

Segundo a leitura canônica, a matemática alvo da etapa da dúvida em que Descartes   recorre à hipótese do Deus enganador seria a matemática segundo a concepção cartesiana, isto é, a matemática concebida como conhecimento constituído por ideias claras e distintas e, por essa razão, ao duvidar do conhecimento matemático, estar-se-ia duvidando da verdade das ideias claras e distintas.  Apesar de já bastante estabelecida a plausibilidade dessa interpretação, com base, sobretudo, na passagem em que Descartes nas Meditações Metafísicas introduz uma possível distinção entre, de um lado, as ciências como a física e, de outro, as matemáticas, meu objetivo nesse texto é discutir qual seria a concepção de matemática considerada na Primeira Meditação e sugerir que esta matemática dubitável não pode ser um exemplo de ciência constituída por ideias claras e distintas, o que implica que as ideias claras e distintas não seriam postas em questão pelo recurso à hipótese de um Deus enganador.  A hipótese a ser sustentada é a de que, em vez de ideias claras e distintas, a dúvida cartesiana, em todas as suas etapas, inclusive na etapa em que Descartes recorre à hipótese do Deus enganador, tem como alvo o processo abstrativo que, segundo a escolástica de inspiração aristotélica, é a primeira das operações cognitivas e cujo princípio fundamental é o de que todo e qualquer conhecimento, de um modo ou de outro, depende da matéria.