- Autor
- Marcos Silva
- Revista
- Sofia
- Edição
- 15 / 1
- Ano
- 2026
- DOI
- 10.47456/sofia.v15i1.51834
- Páginas
- e15151834-e15151834
- Idioma
- pt-BR
Este artigo propõe uma reformulação crítica do inferencialismo semântico e do expressivismo lógico a partir de uma perspectiva periférica. Argumenta-se que, para grupos submetidos a regimes de dominação racial, colonial e de gênero, a linguagem não deve ser concebida nem como espelho da realidade nem apenas como lâmpada que explicita normas já operantes nos jogos de linguagem. Tais regimes de dominação são analisados como formas de violência gramatical, entendidas como imposição de redes de inferências materiais que não só fixam o significado dos conceitos operantes em nossos jogos de linguagem, mas predam a gramática de uma forma de vida autóctone, porque redistribuem autoridade, valor, reconhecimento e exclusão. Conceitos como “raça” e “gênero” funcionam como eixos conceituais com grande densidade inferencial que naturalizam hierarquias sob aparência de neutralidade normativa. Distingue-se, então, o bootstrapping inferencial das alavancas gramaticais. O primeiro designa o processo de explicitação de regras enquanto se participa das práticas que lhes conferem significado. As alavancas gramaticais nomeiam intervenções situadas que identificam fulcros conceituais nessas redes inferenciais, e além de explicitá-los, mobilizam ação coletiva para deslocá-los. Discute-se ainda o aquilombamento normativo como forma histórica de consolidação coletiva de gramáticas alternativas. Exemplos como o Quilombo dos Palmares, a atuação de Malcolm X e dos Panteras Negras são analisados como disputas por soberania gramatical e autodeterminação normativa de grupos minorizados em jogos de linguagem supremacistas, e não como demandas de mera assimilação, integração ou ampliação de direitos civis.
