Desacordos profundos: sobre o trilema de Agripa normativo, a soberania gramatical e certezas fulcrais como metacritério para a ação
Paloma Xavier, Marcos Silva
- Autor
- Paloma Xavier, Marcos Silva
- Revista
- Griot : Revista de Filosofia
- Edição
- 26 / 2
- Ano
- 2026
- DOI
- 10.31977/grirfi.v26i2.5794
- Páginas
- 1-21
- Idioma
- pt
Este artigo desenvolve uma crítica cética e materialista à literatura contemporânea sobre desacordos profundos, argumentando que ela falha em captar a dinâmica real do convencimento em conflitos éticos e políticos persistentes. Sustentamos, em primeiro lugar, que, mesmo em Fogelin (1985/2005), a persuasão surge como um resíduo pouco tematizado do fracasso da argumentação racional, abstraído das relações de poder, dos afetos e das condições materiais que estruturam os jogos de linguagem. Em segundo lugar, defendemos uma virada normativa na análise desses desacordos: eles não dizem respeito primariamente à verdade de crenças, mas à disputa por critérios, procedimentos e normas que definem o que conta como fato, razoável, legítimo ou verdadeiro. Essa disputa criterial conduz a uma leitura normativa do trilema de Agripa, na qual o regresso não é de crenças, mas de critérios, e encontra seu ponto de estabilização em certezas fulcrais. Em terceiro lugar, argumentamos que tais certezas funcionam como metacritérios para a ação e que, em contextos de injustiça estrutural, podem e devem ser explicitadas, disputadas e transformadas. A análise de alguns cenários do diálogo imaginário entre Moore e o rei em Sobre a Certeza (1969), de Wittgenstein, evidencia que a persuasão, quando ocorre, é sempre atravessada por instituições, afetos e poder. Com isso, defendemos a possibilidade de intervenção normativa coletiva nas práticas conceituais, caracterizada como soberania gramatical, condição prática para a transformação de jogos de linguagem injustos.
