Entre autonomia e conformidade: o esclarecimento kantiano e a recusa à tutela em O Estrangeiro de Camus
Luiz Henrique Pimenta Quintela
- Autor
- Luiz Henrique Pimenta Quintela
- Revista
- Argumentos - Revista de Filosofia
- Edição
- 18 / 1
- Ano
- 2026
- DOI
- 10.36517/arf.v18i1.96468
- Páginas
- 153-167
- Idioma
- pt
Este artigo investiga a articulação entre o conceito kantiano de esclarecimento (Aufklärung), conforme exposto no ensaio “Resposta à Pergunta: O que é Esclarecimento?” (1784), e a representação literária da recusa à conformidade normativa em O Estrangeiro (1942) de Albert Camus. Argumenta-se que Meursault, protagonista da obra camusiana, encarna uma forma paradoxal de relação com o esclarecimento: ao recusar as expectativas sociais e performar uma existência autêntica, ele tanto manifesta autonomia quanto permanece aprisionado em uma forma de menoridade que o impede de exercer publicamente sua razão. A análise demonstra que a distinção kantiana entre uso privado e uso público da razão fornece chave interpretativa fundamental para compreender não apenas o destino trágico de Meursault, mas também fenômenos contemporâneos de resistência silenciosa à normatividade institucional, particularmente no âmbito das relações de trabalho. Ao evidenciar os limites da autonomia meramente individual, este estudo contribui para a compreensão filosófica de práticas contemporâneas de delimitação de fronteiras entre conformidade obrigatória e engajamento voluntário, oferecendo subsídios teóricos para investigações sobre mudanças nas relações entre sujeito e instituições na contemporaneidade.
