- Autor
- Carla Damião
- Revista
- Artefilosofia
- Edição
- 20 / 40
- Ano
- 2026
- DOI
- 10.69640/raf.v20i40.8500
- Páginas
- 10-10
- Idioma
- pt
Nesta entrevista, a antropóloga Lúcia Hussak van Velthem discute sua trajetória e as complexas artes e cosmologias indígenas, focando especialmente nos povos Wayana e Aparai. Ela propõe o conceito de "estética do viver", em que a beleza de um objeto é intrínseca à sua funcionalidade e eficácia prática, desafiando a visão ocidental de arte puramente contemplativa. Os artefatos são descritos como "quase-corpos" com capacidades agentivas; para o uso seguro no cotidiano, esses objetos apresentam corpos fragmentados — como o tipiti serpentiforme — para que sua agência seja controlada pelos humanos. Velthem detalha o sistema "mito-gráfico", onde o repertório visual originado da pele da cobra-grande Tulupele captura potências ancestrais por meio de um "minimalismo figurativo", identificando seres através de traços essenciais e definidores. O conhecimento técnico, chamado tuwaré, fundamenta-se na visão e na proteção dos wayanaman, entidades que habitam as pupilas e guiam a manufatura dos artesãos. Na prática museológica, a pesquisadora defende uma curadoria colaborativa que respeite o protagonismo das populações tradicionais e a pluralidade dos patrimônios. Ela enfatiza a luta diária contra o esquecimento e a necessidade de observar sensibilidades cosmológicas, como o entendimento de que objetos em reservas técnicas estão "dormindo" e requerem cuidados específicos, incluindo o ocultamento de itens sensíveis ou a disposição física correta conforme normas rituais. Por fim, discute a ascensão de artistas indígenas em centros urbanos como uma forma de ativismo político e crítica cultural, buscando reconhecimento além do rótulo de "artesanato".
