Os conceitos opostos """"aparecer' e """"coisa em si"""" (bem como """"phaenomenon"""" e """"noumenon"""") têm sido problemáticos desde os tempos de Kant. As alegações do filósofo quanto a limitação de todo conhecimento especulativo da razão aos objetos da experiência e, consoante a isso, de não serem as coisas em si cognoscíveis (em virtude de convirem a elas o espaço e o tempo) suscitam a detecção de um paradoxo na Crítica da Razão Pura: se o domínio do cognoscível é, em última análise, o das representações, como as coisas em si poderiam tanto ser ditas fundamento da objetividade da percepção de objetos exteriores quanto não serem cognoscíveis? O presente estudo procura mostrar que, de um modo geral, as soluções consolidadas na interpretação da filosofia kantiana compartilham, por não observarem sistematicamente as diferenças logicas e cognitivas existentes entre a exclusão de um predicado e a posição de um predicado negativo, da suposição de serem os juízos logicamente negativos (de exclusão) capacitados, por si sós, a determinar o sujeito do juízo. Revelam-se, por esta razão, incapazes de proceder a uma análise satisfatória das relações vigentes entre os conceitos do aparecer (ou do fenômeno), do noumenon em sentido negativo (a coisa em si ou a coisa enquanto não é objeto de nossa intuição) e o noumenon em sentido positivo (objeto de uma intuição não-sensível) - relações cuja caracterização é essencial para a tarefa mesma proposta para um crítica da razão pura: traçar os limites do conhecimento puro especulativo da razão.