- Autor
- Andrei Isnardis Horta
- Revista
- Artefilosofia
- Edição
- 20 / 40
- Ano
- 2026
- DOI
- 10.69640/raf.v20i40.8508
- Páginas
- 40-40
- Idioma
- pt
O objetivo deste texto é compartilhar nossa tentativa de construir um entendimento (e alguns de seus efeitos) sobre um dos mais vigorosos aspectos das pinturas rupestres indígenas que vem se tornando evidente para nós: a intensa relacionalidade na composição de painéis e figuras. Nas regiões de Diamantina (Serra do Espinhaço) e do Vale Peruaçu (Norte de Minas), em que nossa equipe, vinculada ao Setor de Arqueologia do MHNJB da UFMG, vem desenvolvendo pesquisas continuadas, temos percebido que, quando se compuseram pinturas sobre paredes rochosas que já estavam pintadas (o que é muito recorrente nessas regiões), as pessoas autoras de novas figuras interagiram fortemente com as pinturas já presentes. Essa interação se fez de formas diversas, por meio de sobreposições, repinturas, encaixes, evitamentos, incorporação de elementos. Essas práticas colocam sérios desafios para as abordagens usuais da arqueologia de grafismos rupestres e estamos no movimento de atender a esses desafios. Buscando repertório junto a princípios das filosofias ameríndias, proponho que as pinturas já presentes nas paredes agiram sobre as pessoas que diante delas chegaram, dispostas a compor novos grafismos. Os elementos que temos reunido expressam o vigor da experiência perceptiva do que está na parede e a potência dessas formas e cores em promover condutas, demandar engajamento a quem as percebe. Temos aí relações nas quais tanto pessoas pintoras, quanto pinturas são sujeitos. A experiência estética de apreciação das pinturas seria, entre as pessoas indígenas antigas suas autoras, uma experiência ativa, com engajamento corporal, material, interventivo.
