- Autor
- Juliana Oliva
- Revista
- Revista Ética e Filosofia Política
- Edição
- 2 / 28
- Ano
- 2025
- Idioma
- pt
Na década de 1960, em defesa da militante argelina Djamila Boupacha, acusada sem provas, detida e torturada por forças coloniais, Simone de Beauvoir pergunta: “Ainda podemos ser movidos pelo sangue de uma jovem mulher?” A filósofa existencialista afirma que se alguém sucumbe à tortura, é assassinado, ou, mata a si mesmo. Nesse cenário, o cadáver pode ser escondido, situação sobre a qual conclui: “sem cadáver, sem crime”. Ainda que familiares possam questionar o desaparecimento de uma pessoa, Beauvoir destaca o prevalecimento do silêncio. Assim como o silêncio prevalece nas ameaças que sofrem os sobreviventes à tortura. Se um sujeito é torturado e desaparece, que outro o tortura e toma o seu corpo como um objeto inessencial? Em Por uma moral da ambiguidade, a filósofa existencialista explica que o corpo não é um fato bruto e que nele exprimimos nossa relação com o mundo. Beauvoir nota criticamente uma distinção da qual seu tempo se orgulha, entre a permissão da tortura no âmbito militar, e a compreensão de que “não é o exército que tortura”. Se é possível uma subjetividade aniquilada, invisibilizada e então silenciada em seu corpo, em casos de tortura pelo qual Djamila Boupacha passou, e naqueles que assombram nosso presente nas celas de Guantánamo, em presídios brasileiros, em Gaza, nas prisões de El Salvador, no apoio de Donald Trump à violência de Israel cometida contra o povo palestino e o iraniano, que sujeito é esse que tortura o outro com as próprias mãos?
