UM FILÓSOFO À PROCURA DO MATERIALISMO, OU DIDEROT E OS ENSAIOS DE UMA COSMOLOGIA MATERIALISTA
Felipe A. Cordova
- Autor
- Felipe A. Cordova
- Revista
- Sapere Aude
- Edição
- 3
- Ano
- 2026
- DOI
- 10.5752/P.2177-6342.2026v3n3p144-160
- Páginas
- 144-160
- Idioma
- pt
Ainda que não tenha redigido nenhum tratado sistemático expondo seu materialismo, Diderot, valendo-se de procedimentos discursivos heterodoxos, forneceu em pelo menos três ocasiões as pistas que permitem reconstituir uma Cosmologia materialista. Esses três ensaios cosmológicos estão contidos, sucessivamente, na Carta sobre os cegos (1749), nos Pensamentos sobre a interpretação da natureza (1754) e em O sonho de d’Alembert (1769). Nosso objetivo aqui foi o de percorrer esses textos a fim de traçar paralelos e compreender algumas das mudanças ocorridas ao longo desse itinerário. A principal delas, cremos, diz respeito à fonte do material científico – ou a ausência dele – que serve de apoio ao autor na formulação de suas hipóteses metafísicas. Entretanto, essas fontes, que vão de Buffon e Maupertuis ao vitalismo de Montpellier, a despeito de suas diferenças, estão invariavelmente contidas no campo das chamadas ciências da vida, refletindo a obstinação de um autor que estabelece como programa filosófico a destituição das matemáticas enquanto modelo do saber, e sua substituição pelas ciências experimentais. Para além disso, deverá ficar evidente ao fim do percurso que a contribuição de Diderot ao materialismo é menos a elaboração de conceitos originais que o trabalho crítico de reelaboração das categorias materialistas já existentes.
