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UM PAR DE SAPATOS DE CAMPONÊS: Heidegger e o espanto com o simples

Laura Moosburger

Autor
Laura Moosburger
Revista
Sapere Aude
Edição
17 / 33
Ano
2026
DOI
10.5752/P.2177-6342.2026v17n33p71-86
Páginas
71-86
Idioma
pt
2026Laura Moosburger. UM PAR DE SAPATOS DE CAMPONÊS: Heidegger e o espanto com o simples. Sapere Aude, v. 17, n. 33, p. 71-86, 2026.4

O texto aborda a dimensão do “simples” no pensamento tardio de Heidegger, rumando para sua aparição no ensaio A origem da obra de arte, particularmente na interpretação do quadro “Par de sapatos”, de Van Gogh. O simples, em sentido essencial, remete à simplicidade (Einfalt) que habita a própria diferença ontológica e mantém-se envolta em mistério, ligada ao caráter simples (einfach, schlicht, gering) das coisas – ponte, jarra, casa camponesa... Enquanto a técnica moderna, operando de maneira exploratória e por vias múltiplas (vielfach), decompõe e esfacela o acontecer da verdade, o moinho de vento exemplifica uma técnica ainda permeada pela ποίησις originária que acompanha o velar-se e desvelar-se da φύσις, irmanando-se às coisas simples que doam mundo. Em sua interpretação da pintura de Van Gogh, Heidegger promove um retorno à simplicidade pela verdade instaurada na obra, evidenciando que, se a obra é capaz de revelar a verdade – como por-se-em-obra da verdade –, é que o acontecer da verdade é ele mesmo poético. Por sua vez, o que tanto distingue a escolha de Heidegger pela pintura do par de sapatos é a sua compreensão de que o poético é o simples em sentido essencial.