- Autor
- João Pinheiro
- Revista
- ARARIPE — REVISTA DE FILOSOFIA -
- Edição
- 5 / 1
- Ano
- 2025
- DOI
- 10.56837/Araripe.2024.v5.n1.1444
- Páginas
- 137-197
- Idioma
- pt
Este ensaio apresenta uma avaliação da crítica evo-conservadora. A versão mais premente da crítica evo-conservadora diz-nos que a evolução humana foi tal que estamos impossibilitados de formar organizações muito inclusivas estáveis ao longo do tempo, de tal forma que estas organizações deveriam ser repudiadas enquanto alternativas viáveis para a realização de ideias e ideais de justiça, de que são exemplo as teorias cosmopolitas da justiça. O ensaio começa por contextualizar historicamente a emergência das críticas evoconservadoras, partindo depois para a identificação da sua versão mais acutilante. Após este primeiro momento, identificam-se várias lacunas nas premissas empíricas dos argumentos evo-conservadores. Brevemente, denota-se que muitas interpretações da evidência poderão estar enviesadas e que de acordo com os próprios pressupostos dos argumentos evoconservadores os fenómenos cosmopolitas vigentes não deveriam ser possíveis. Dadas as possíveis falhas das premissas evo-conservadoras e a necessidade de uma explicação adequada dos fenómenos cosmopolitas vigentes, o ensaio redirecciona o seu foco na procura de uma explicação evolutiva para estes últimos. Tentativamente, sugere-se que talvez possamos encontrar uma explicação para o cosmopolitismo num conjunto de hipóteses acerca da evolução social humana que designamos por “hipótese da interdependência” (em acordo com uma proposta de Tomasello et al. 2012). Esta hipótese diz-nos que a psicologia social humana evoluiu num contexto em que as interacções humanas se vieram deixar caracterizar por interdependência obrigatória. É neste contexto evolutivo que os humanos adquiriram aquilo que poderemos chamar de uma “psicologia de interdependência”, isto é, uma psicologia capaz de avaliar, com alguma fiabilidade, o nosso grau de dependência doutros. É tendo esta hipótese por pano de fundo que podemos depois identificar outras hipóteses, como a do “parentesco” e a do “doce comércio” (entre outras), que discriminam condições específicas nas quais instituições de índole cosmopolita podem ser vantajosas...
