A pessoa como desafio da sociedade gobalizada e a atualidade do pensamento ético personalista
Carlos Roberto da Silveira
- Autor
- Carlos Roberto da Silveira
- Orientador(a)
- Gabriel Lomba Santiago
- Universidade
- PONTIFÍCIA UNIVERSIDADE CATÓLICA DE CAMPINAS — PUCCAMP
- Programa
- FILOSOFIA
- Grau
- MESTRADO
- Ano
- 2003
Uma estabilidade política e a crença no progresso advinda do Século XIX avançam adentrando o novo período secular, mas de repente, atônita, a humanidade surpreende-se com a I Grande Guerra Mundial, as certezas tornam incertezas, coisas concretas passam a um relativismo, valores despencam de seus pedestais alterando as rotas das crenças perante a ciência, a fé e a racionalidade, dando-se início a um período trágico. Neste ínterim tivemos as guerras mais sangrentas, os projetos de engenharia social mais terríveis e jamais vistos pela humanidade em que milhões de vidas sucumbiram. Tivemos campos de concentração, holocaustos, bombas atômicas, regimes totalitários, a miséria, a fome, aliada a crises de dimensões econômica, política, social, religiosa, moral, reduzindo o ser humano e conseqüentemente a humanidade ao nada. Durante o andamento de nosso trabalho, teremos a oportunidade de presenciar o Personalismo de Mounier a aflorar na França, neste ambiente hostil, pois ele, ao estudar esta crise da civilização, deparou-se com a crise da noção de Pessoa. Assim, toda a sua filosofia veio a desenvolver entremeio às reflexões, às articulações com a vida, por entre os desafios dos acontecimentos, dos dramas da humanidade, da cultura, e juntamente com o movimento Esprit, empreendeu uma nova filosofia, diferente dos moldes acadêmicos de sua época, pois para o Personalismo, sua construção revela-se no dia-a-dia, em contato direto com os problemas dos homens, tendo paralelamente a pretensão de extrair do pensamento filosófico as respostas que auxiliassem no empreendimento de ações concretas. Engajado, compromissado cada vez mais com a causa humana, o movimento, como veremos, sofreu variadas privações e censuras. Mounier passa pelo cárcere, e apesar de muitos pesares, a ação personalista expandiu-se, propondo debates, somando vitórias, denunciando as construções lógicas dos moralistas, doutrinários e espiritualistas que se afastavam da realidade humana, confrontando com os grandes poderes que camuflavam sobre as vestes da ordem, encobrindo as desordens que estabelecia no seio da sociedade, quer na comunidade, na política, no mundo cristão. Enfim, o Personalismo pretendido, não se tratava e nem tinha a pretensão de ser mais uma filosofia, e sim, dos brotos da intencionalidade e ação esperava despertar consciências adormecidas, acordando-as do sono dogmático, preparando-as a engajarem numa pulsão à vida, num ser-situado, responsável por si e por outrem, não aceitando o comodismo e a passividade, imprimindo implicitamente na história e no acontecimento, uma ética de responsabilidade individual e comunitária, uma personalização contra as injustiças, uma revolução que simultaneamente tinha abrangência moral, espiritual, social, econômica e política. Com o passar do tempo, sintonizando-nos em dias atuais, notamos que novos episódios nos cercam já no início deste século XXI. Temos ainda como foco principal a Pessoa, entremeio a outros grandes problemas, outra dimensão, em que novas desordens avassalam a humanidade. Não é estranho pensar que voltamos a aludir o enfoque defendido por Mounier no início do Século XX, o que nos faz redescobrir que a idéia de Pessoa proposta pelo personalismo mounieriano pode descortinar também, em nosso tempo, mostrando-nos sua atualidade e fazendo-nos acreditar que forneça subsídios éticos diante deste grande e novo desafio da Pessoa frente a uma ocidentalização do mundo, cujas vicissitudes atordoam e tendem a uma despersonalização, remetendo-nos aos braços de novas ideologias, agora, de uma sociedade globalizada.
