AFECÇÕES: UMA RELEITURA, A PARTIR DE ANTÓNIO DAMÁSIO, DAS EMOÇÕES EM ESPINOSA
Vicente Gomes de Melo Filho
- Autor
- Vicente Gomes de Melo Filho
- Orientador(a)
- Cleverson Leite Bastos
- Universidade
- PONTIFÍCIA UNIVERSIDADE CATÓLICA DO PARANÁ — PUC/PR
- Programa
- FILOSOFIA
- Grau
- MESTRADO
- Ano
- 2010
Neste trabalho nos propomos a reler Espinosa, mais precisamente, reler as Emoções em Espinosa, a partir da perspectiva neurobiológica de António Damásio. Inicialmente destacamos a noção cartesiana do dualismo substancial, caracterizada por conceber mente e corpo como distintos. Em oposição a essa concepção, apresentamos o monismo naturalista de Espinosa, que compreende a mente e o corpo como partes integrantes da natureza. Em seguida, fizemos uma leitura das obras de Damásio (1996, 2000, 2004) e procuramos apresentar uma possível aproximação entre o monismo naturalista de Espinosa e a abordagem neurobiológica de Damásio. Em António Damásio encontramos também esse paralelismo mente e corpo. Para ele o corpo é um pedaço da natureza que tem como fronteira a pele. Consequentemente, “para ter sentimento você precisa de um corpo, meios para representar esse corpo dentro de si mesmo – um sistema nervoso capaz de mapear esse corpo e a consciência.” A consciência emerge em uma rede neural integrada, consequência das interações entre cérebro, corpo e ambiente. Apesar de possuir suas bases biológicas, a consciência não se reduz a elas. Os mecanismos cerebrais ligados à produção de emoções e sentimentos são estruturas muito dinâmicas em constante mudança, gerando em nós o que chamamos de estados emocionais. O nosso organismo oscila o tempo todo, numa dinâmica perpétua de autoregulação. Essa fluição é a própria essência da vida. Se ela está presente dentro de um equilíbrio a vida persiste em suas fronteiras. E esse estado nada mais é do que o esforço contínuo de “existir”, ao qual cada ser tende por sua própria natureza, como bem consta Espinosa quando se refere ao conatus. Espinosa quer que o indivíduo, através do conhecimento, combata as afecções negativas, às quais ele considera como “paixões”. Como ele afirma: “Um afeto que é uma paixão deixa de ser uma paixão assim que formamos dele uma ideia clara e distinta.” (SPINOZA, 2007). Damásio (2004), por sua vez, afirma que é necessário que o indivíduo construa uma ruptura entre o “estímulo-emocionalmente-competente”, desencadeantes das emoções negativas como o medo, a raiva, o ciúme e a tristeza, substituindo-o por “estímulo-emocionalmente-competente” capazes de desencadear emoções positivas. Espinosa acredita que quanto maior for o número de pessoas que compreendem essas coisas, melhor a humanidade caminhará rumo ao seu verdadeiro sentido, aproximando-se cada vez mais de sua essência: a coexistência com Deus-natureza. Esse é o bem supremo, a “beatitude”, caracterizado pelo crescimento intelectual, ou seja, o conhecimento da união que a mente tem com a Natureza, isto é, com Deus. A felicidade completa, o bem supremo é o “amor intelectualis Dei”.
