- Autor
- Francisco Valdério Pereira da Silva Júnior
- Orientador(a)
- Marcelo Perine
- Universidade
- PONTIFÍCIA UNIVERSIDADE CATÓLICA DE SÃO PAULO — PUC/SP
- Programa
- FILOSOFIA
- Grau
- MESTRADO
- Ano
- 2010
Em Marx, o fio condutor do vir a ser é a práxis da emancipação humana pelo socialismo e comunismo. Construção universal, intrínseca à ruptura do capitalismo, a argumentação se faz presente, na obra marxiana, ao longo de quatro décadas. Envolve, no conjunto, a realidade objetiva da necessidade do trabalho como mercadoria e fonte de alienação, e da propriedade privada como alicerce do estranhamento originado pela sociedade de classes e da preponderância do indivíduo sobre a espécie. Engloba todas as formas de pensar, a começar pela utopia social, que ressurge no alvorecer do século XIX, com o pensamento reformista ao resgatar a filosofia como caminho para a antecipação do futuro da felicidade humana. Na argumentação de Marx, a revolução burguesa de 1789 rompeu com a sociedade feudal, mas não aboliu a exploração do homem pelo homem. Gerou duas classes antagônicas e irreconciliáveis: a burguesia e o proletariado. Argumentava que no século XIX a revolução proletária emergia como a negação da negação, abolindo a propriedade privada e inauguraria a verdadeira história da humanidade. O pensamento utópico, que germina com Saint-Simon, Charles Fourier e Robert Owen, considerava o vir a ser como prolongamento da Revolução Francesa, construído pela consciência, a reforma gradativa da sociedade. Negava a ruptura, pela violência, com a sociedade vigente, e afirmava o conceito de ordem. Em lugar da revolução proletária, pregava a união de classes, lastreada pelas boas leis, os bons governos e a educação para a verdade e o bem. Esvaziava a sociedade vigente para construir, paulatinamente, uma nova ordem. Em ambas as visões do vir a ser, o centro é o homem. A utopia, nesse contexto, deixa de ser um não lugar, como foi originalmente no século XVI, pelo livro homônimo de Tomas More. Torna-se uma geografia de dimensões universais ou, no mínimo, europeia, um conhecimento e uma possibilidade de superação dialética da sociedade burguesa. Foi o que Marx buscou realizar ao unir a filosofia da práxis com a economia política e a teoria revolucionária. Foi o que o pensamento utópico procurou dar forma pelo caminho da consciência pelo convencimento. O ponto de interseção encontra-se no primado do coletivo sobre o indivíduo, afirmando o descartar de uma civilização que se consumiu nas suas próprias contradições para semear uma sociedade em que pensamento e ação fossem coincidentes. Uma 7 sociedade em que o humanismo não fosse apenas um instrumento retórico, mas o real do vir a ser, em que o homem fosse uma totalidade, não um ser fragmentado, ilusória representação do real. Uma sociedade em que o fim do império da necessidade fosse o princípio do reino da liberdade. São horizontes de construção que se movimentam por caminhos distintos – um pela práxis revolucionária, a organização do proletariado, outro pela consciência, as boas leis, a educação e a união de classes –, mas que se encontram dialeticamente nos domínios da produção de ideias, mobilizações e organização do proletariado e da sociedade. Convergem, sobretudo, no pensamento e ação de antecipar o vir a ser do socialismo e do comunismo. Dois caminhos, um mesmo fim?
