Dissertações

O Problema da Sorte Moral.

Eduardo Augusto Pohlmann

Dissertação
Autor
Eduardo Augusto Pohlmann
Orientador(a)
Nelson Fernando Boeira
Universidade
UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO GRANDE DO SUL — UFRGS
Programa
FILOSOFIA
Grau
MESTRADO
Ano
2012
2012Eduardo Augusto Pohlmann. O Problema da Sorte Moral.. 2012. Dissertação (MESTRADO em FILOSOFIA) — UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO GRANDE DO SUL, RS. Orientador(a): Nelson Fernando Boeira.2

O problema da influência da sorte na ação humana sempre foi um tema preponderante em boa parte da filosofia e da arte. A tensão entre o controle das nossas vidas e a possibilidade de sermos afetados decisivamente por circunstâncias completamente alheias ao nosso domínio, bem como a possibilidade de levarmos uma vida ao menos razoavelmente imune a tais circunstâncias e de que forma fazer isso já era marcante no alvorecer da filosofia grega, e continua até hoje como um objeto importante de reflexão. Se é inegável que a sorte tem um papel importante, e influencia não só o que acontece conosco, como também a nossa própria constituição e caráter e, com isso, a forma como respondemos ao mundo, há uma área, no entanto, que consideramos que é alheia à ela: a moral. De fato, uma das nossas intuições mais básicas é que não podemos ser censurados por aquilo que não estava em nosso controle evitar. Cremos que o foco da avaliação moral deve se centrar única e exclusivamente naquela ação em que éramos senhores da situação e das circunstâncias. Essa intuição tão cara a nós, contudo, choca-se com um fato inegável da nossa experiência moral: nós realmente avaliamos moralmente as pessoas por ações não só voluntárias, mas também por ações que, mesmo involuntárias, decorreram delas. A tensão entre aquela intuição e esse fato é o ponto de partida do problema da sorte moral. Apesar do ponto de partida e do problema comum, o tema recebeu tratamentos divergentes na literatura filosófica. Não irei expor aqui todas essas abordagens, e irei me deter com vagar apenas sobre as considerações de Bernard Williams e Thomas Nagel, que colocaram o problema na agenda filosófica. O trabalho será dividido em dois capítulos. No primeiro irei expor o problema da sorte moral tal como está formulado em Nagel. Nesse capítulo farei uma exposição sistemática dos tipos de sorte moral, dos refinamentos que o tema ganhou ao longo do tempo, dos debates que gerou, etc. A discussão nesse capítulo girará, em grande parte, em torno do relacionamento da sorte moral com a responsabilidade moral, mas esse tema não terá aqui relevância que ele tem na discussão contemporânea sobre sorte moral. A visão de Williams sobre o tema será objeto do segundo capítulo. As suas preocupações são muito mais amplas, sendo por ele sumarizadas em três pontos centrais: 1) qual o lugar da moralidade frente à ética?; 2) qual o lugar da ética frente a outras atividades humanas?; 3) é plausível a ideia de uma justificação retrospectiva? O tema da sorte moral não é um tema isolado da filosofia de Williams. Muito pelo contrário, ele guarda estreita intimidade com o seu projeto geral de crítica não apenas da teoria kantiana, mas de toda e qualquer teoria moral. Talvez todos eles pudessem ser resumidos a uma grande motivação do filósofo inglês, que inclusive dá título a um de seus trabalhos principais: a filosofia, especialmente a filosofia moral, deve se dar conta dos seus limites. O que ele pretende é uma espécie de desvalorização desse ramo da filosofia na sua tarefa de fornecer respostas sobre como devemos viver e critérios para julgar a correção das ações. Seu propósito é mostrar os limites da filosofia, analisando de que forma as teorias filosóficas tradicionais são incompletas e falhas, e se ressentem de dados e análises que não podem ser dados nos seus próprios termos. Este trabalho não pretende tratar de todos as questões que surgiram no debate sobre o problema da sorte moral. Ele procurará compreender sua origem e motivações básicas e demonstrar de que forma ele pode ajudar a nos compreendermos melhor. Ele é também um esforço de articular algumas ideias que gravitam em torno da sorte moral, para com isso fornecer uma melhor visão da complexa filosofia moral deste que foi um dos grandes filósofos do século XX, Bernard Williams. ...Palavras-chave: sorte moral; Bernard Williams; Thomas Nagel; Kant; moralidade; ética; responsabilidade; contingência; tragédia; vulnerabilidade; problema de Gauguin; integridade; ground project; sorte epistêmica; agent-regret; justificação retrospectiva.