- Autor
- Lucas Mello Carvalho Ribeiro
- Revista
- Sapere Aude
- Edição
- 3
- Ano
- 2026
- DOI
- 10.5752/P.2177-6342.2026v3n3p97-109
- Páginas
- 97-109
- Idioma
- pt
O projeto autobiográfico de Rousseau reivindica, para cumprir seu propósito, uma nova linguagem. Se o autor pretende apresentar-se “em toda a verdade da natureza”, ele não poderá contar com uma escrita fria, distanciada, enredada nas tramas do amor-próprio. Será preciso forjar uma escrita apta a transmitir aos leitores sentimentos inalterados pela corrupção social, uma escrita acentuada, melódica, forte. Trata-se, aqui, de desenvolver a hipótese segundo a qual essa nova linguagem requer, por sua vez, uma nova forma de leitura: a linguagem apaixonada das Confissões não demanda assentimento racional, senão ressonância afetiva. Mantendo-se permeável aos acentos que acompanham a escrita, o leitor visado pelo genebrino deve perscrutar a disposição anímica do autobiógrafo, deixar-se afetar por ela, o que lhe permitirá vislumbrar a qualidade moral daquela obra e de seu autor. Pretende-se, mais especificamente, sustentar o argumento de que os Diálogos – segundo grande empreendimento autobiográfico de Rousseau – são não apenas fruto de uma certa frustração com algumas das primeiríssimas recepções das Confissões, mas podem ser vistos justamente como uma lição de leitura para a autobiografia como um todo. O caráter inaugural da escrita de si rousseauniana tem como correlato uma nova ética de leitura, que caberá explicitar no presente artigo.
