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Dissertações

Autoengano e Delírio: dois ensaios sobre crenças e racionalidade

José Eduardo Freitas Porcher

Dissertação
Autor
José Eduardo Freitas Porcher
Orientador(a)
Paulo Francisco Estrella Faria
Universidade
UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO GRANDE DO SUL — UFRGS
Programa
FILOSOFIA
Grau
MESTRADO
Ano
2011
2011José Eduardo Freitas Porcher. Autoengano e Delírio: dois ensaios sobre crenças e racionalidade. 2011. Dissertação (MESTRADO em FILOSOFIA) — UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO GRANDE DO SUL, RS. Orientador(a): Paulo Francisco Estrella Faria.3

A dissertação é composta por dois ensaios que, apesar de autossuficientes, possuem um objeto comum: o estudo dos limites de aplicação do conceito de crença mediante o exame de fenômenos que desafiam a atribuição de crenças aos sujeitos em que se manifestam. Os fenômenos escolhidos—o autoengano e os delírios estudados pela psiquiatria—são exemplos de estados mentais cuja inaptidão a desempenharem plenamente o papel funcional tido como essencial para que um estado mental seja uma crença põe em dúvida tanto o estatuto de crença (dito ‘doxástico’) desses estados, quanto os critérios para a atribuição desta categoria psicológica. Portanto, as questões fundamentais que norteiam estas investigações são: que espécie de estado mental constituem esses fenômenos? Estamos autorizados a classificar como crenças estados anômalos que ostensivamente violam as normas da racionalidade?.No que diz respeito ao autoengano, foi analisado um argumento contra a opção de classificar como doxásticos os estados mentais característicos desse fenômeno. Tal argumento parte da premissa de que seja uma característica essencial das crenças que essas visem à verdade, e aponta que, qualquer que seja o tipo de estado produzido pelo autoengano, esse não satisfaz tal condição. Procurei mostrar uma deficiência fundamental nesse argumento, a saber, que a suposta teleologia da crença não acarreta a impossibilidade de estados que, apesar de essencialmente voltados a uma correspondência com o mundo, são impedidos de atingir o seu objetivo por processos extrínsecos a tal característica essencial. A partir disso, uma proposta positiva foi discutida, que substituiria a concepção doxástica do autoengano pela caracterização deste como uma forma de imaginação proposicional. Foi apontado que qualquer candidato a substituir a crença nesse contexto explanatório deveria, no mínimo, desempenhar o mesmo papel que a crença na produção de ações. Subsequentemente, foi examinada uma tentativa de equacionar os poderes motivacionais da crença e da imaginação, concluindo-se que tal tentativa está enredada em uma ambiguidade. Enfim, foi apresentado um argumento que pretende estabelecer que nenhuma atitude cognitiva possui papel motivacional sem a presença de uma crença de fundo—crenças não apenas, em conjunção com desejos, causam e racionalizam ações, mas também determinam se e quando se age com as outras atitudes como inputs cognitivos em escolhas e no raciocínio prático. A primeira investigação, portanto, consiste na avaliação de razões a favor e contra a concepção doxástica do autoengano, e o resultado obtido foi que os argumentos e propostas examinados não são suficientes para suplantá-la. Ainda, se o papel motivacional de todas as atitudes cognitivas que não são crenças de fato depende da existência de uma representação doxástica do cenário prático, então a proposta de classificar o resultado do autoengano como um conteúdo imaginado é derrotada, pois atribuir ao sujeito em autoengano uma representação do cenário prático relevante (que ele, justamente, precisa ignorar) conduziria a um paradoxo...No que diz respeito aos deírios, foi analisada uma tentativa de fugir aos ataques à concepção doxástica desses estados por meio da adoção de uma teoria que flexibilizasse os critérios para a atribuição de crenças. A teoria analisada equipara crenças a conjuntos de disposições estereotípicas de três tipos principais (comportamentais, fenomenais e cognitivas), que podem manifestar-se em diferentes graus. Assim, crer que algo é o caso nada mais seria que corresponder em um grau adequado, e em certos aspectos adequados ao estereótipo disposicional para crença na proposição relevante, e uma característica importante dessa teoria é a postulação de que o que contará como ‘adequado’ dependerá do contexto de atribuição—o que, pode-se inferir, incluirá o público que desejamos informar com a atribuição relevante. Ademais, essa teoria propõe que atribuiremos a um sujeito crença em uma determinada proposição sempre que as maneiras como esse sujeito se afasta do estereótipo possam ser facilmente explicáveis ou desculpáveis por apelo a alguma característica anômala na situação em que ocorrem. Portanto, essa teoria parece acolher a concepção doxástica dos delírios, sob a condição de que encontremos desculpas para todos os modos nos quais os sujeitos deixam de manifestar as disposições estereotípicas de crença no conteúdo deliróide relevante. Ademais, foi observado que o apelo à dependência em relação ao contexto não serve ao propósito de uma defesa da concepção doxástica, pois haverão contextos nos quais a atribuição de crenças genuínas não será a opção mais razoável—contextos nos quais um verdadeiro disposicionalista não verá problema algum em (ao invés de induzir seu público em erro) simplesmente especificar em maior detalhe as disposições manifestas pelo sujeito da atribuição. Foram considerados possíveis candidatos às características anômalas e examinadas respostas possíveis às objeções contra a concepção doxástica dos delírios, tendo-se concluído que o disposicionalismo não auxilia a defesa desta, mas, antes, resulta em uma concepção empobrecida da atribuição de estados anômalos em geral. Por fim, ofereci uma sucinta defesa da ideia de que a tentativa de usar categorias da psicologia do senso comum para classificar estados anômalos é fútil e que devemos, antes, cuidar de detalhar nossa compreensão das disposições envolvidas nesses estados...Palavras-chave: atitudes proposicionais; autoengano; crença; delírio; disposições; irracionalidade; motivação; imaginação.