HISTÓRIA E FILOSOFIA: RELAÇÕES ENTRE O ESQUEMA HEGELIANO E 'OS SETÕES' DE EUCLIDES DA CUNHA
Dejalma Cremonese
- Autor
- Dejalma Cremonese
- Orientador(a)
- Glenn Walter Erickson
- Universidade
- UNIVERSIDADE FEDERAL DE SANTA MARIA — UFSM
- Programa
- FILOSOFIA
- Grau
- MESTRADO
- Ano
- 1996
O estudo aborda a possibilidade da interpretação da obra 'Os Sertões' de Euclides da Cunha como monografia filosófica, uma vez que contém argumentos que possibilitam a relação com o esquema filosófico de Georg Wilhelm Friedrich Hegel, exposto principalmente nas 'Lições sobre Filosofia da História' (1837) e nas 'Lições sobre a Estética' (1842). O objetivo do trabalho consiste em apresentar nas três partes de 'Os Sertões': """"A Terra"""", """"O Homem"""", """"A Luta"""" respectivamente, argumentos que se aproximamdos conceitos de história, geografia e etnia das 'Lições sobre a Filosofia da História', bem como da poética das 'Lições sobre a Estética'. Hegel descreveu nas 'Lições sobre a Filosofia da História' três categorias geográficas: as planícies áridas, os vales férteis e o litoral, que, de acordo com a variação dos elementos físicos, podem influenciar a criação de um determinado tipo de etnia. Conhecedor dessas categorias, Euclides da Cunha apresentou uma intermediária, a do sertão brasileiro, que contém características diferenciadas, em relação à classificação de Hegel, emergindo desta terra na pessoa de Antônio Conselheiro seu arquétipo, um tipo de etnia peculiar diferente dos apresentados por Hegel. Pode-se evidenciar tal afirmação na seção V da primeira parte de 'Os Sertões' onde Euclides da Cunha descreve """"uma categoria geográfica que Hegel não citou"""" (p.45) ao demonstrar que a natureza do sertão diferencia das categorias geográficas hegelianas, impondo """"por isso uma divisão especialn naquele quadro. A mais interessante e expressiva de todas - posta, como mediadora, entre os vales nimiamente férteis e as estepes mais áridas"""" (p.46). Hegel desenvolveu nas 'Lições sobre a Filosofia da História' três maneiras de considerar a história: a imediata (original), a reflexiva e a filosófica. Conforme a própria afirmação de Euclides da Cunha, relatou a Revolta de Canudos considerando-se historiador original. Em seu tratado sobre a Estética, Parte VII, Hegel desenvolveu idéias sobre a prosa e a poesia. Na representação prosáica abre-se o campo da história, pois comunga com a """"comemoração pensante"""" e a """"tomada de consciência"""" realizando-se em sociedades históricas. O aspecto racional e a preocupação com a verdade são características da prosa. Já a representação poética preocupa-se com a interioridade, sendo o reino infinito do espírito seu objeto verdadeiro. Na poética Hegel forma um trívio na distinção dos gêneros épico, lírico e dramático. O épico para Hegel permite uma pintura mais ampla do exterior, assim como a descrição pormenorizada de acontecimentos e de ações. O lírico resgata a subjetividade, o sentimento e as emoções do poeta. Já a tragédia, enquanto espécie do gênero dramático, constitui-se essencialmente no confronto de dois valores opostos igualmente legítimos. Nesse conflito, um há de perecer necessariamente. Euclides da Cunha, como leitor de Hegel, compreendeu a poética hegeliana e estruturou 'Os Sertões' com tais características.
